São 3 horas da manhã aqui em Timergara, é inverno e lá fora temperatura chega a zero graus. Dessa vez não ouço nem o latido dos cachorros abandonados e nem as estranhas galinhas daqui que não dormem como todas as outras do planeta, ou melhor, das brasileiras e italianas.
É 10 de Janeiro de 2015, uma data redondinha, boa para fazer aquele tipo de análise/balanço do tempo. Decidi então fazer comigo algo semelhante.
São quase 10 meses que estou no Paquistão, país que abriga a segunda maior população de muçulmanos do mundo logo após a India e com uma área geográfica dez vezes menor que o Brasil tem o mesmo número de habitantes. À diferença de outros países, aqui as pessoas seguem rigorosamente a religião, alguns mais ocidentalizados, outros mais extremistas. Se me perguntam o que faço aqui nesse país perigoso, eu respondo sem pensar duas vezes que vim a trabalho com uma organização de médicos e que o perigo aqui mesmo que iminente se reduz à uma pequena porção da minha carga de preocupações diárias. Mas a pergunta dos outros, que agora è facilmente respondida, era uma pergunta minha, exemplo típico de curiosidade por algo desconhecido. Soa muito estranho agora lembrar que tempo atrás, antes de aceitar a missão, eu lia os documentos do projeto, a análise do contexto político-religioso-social do Paquistão, e tudo parecia tão longe de mim, difícil de ser alcançado. Agora faz parte de mim, tenho amigos aqui, minha família são meus colegas expatriados que dividem a casa comigo, meu amanhecer começa com a reza da mesquita, e por ao menos 8h do dia tenho meu corpo quase completamente coberto. Pashtun, urdu e inglês são as línguas que ouço e arroz basmanti com frango temperado masala e samoza são meu pratos preferidos. O Paquistão é tão perigoso quanto o Brasil, o que muda é o tipo de violência. No Brasil, o número de homicídios é ainda maior, mas não se vêem ataques terroristas. As pessoas morrem vítimas principalmente do tráfico de drogas, da delinquência e do caos social. Aqui, pessoas morrem em atentados de bomba e em conflitos religiosos e políticos. Problemas que numa sociedade podem ser críticos, em outra podem ser facilmente resolvidos. Diferenças recíprocas como estas enriquecem nossas experiências e nos ajudam a entender melhor e a julgar menos as pessoas.
Em 2010 deixei para trás o país do carnaval e aterrizei no país onde quase tudo termina em pizza, especialmente agora em tempos de crise econômica. Era ainda um mundo pouco conhecido, que precisava descobrir através da visão, olfato, tato, paladar e audição. A visão de um mundo desenvolvido apoiado sobre ruínas milenares é algo inicialmente inquietante. O cheiro da brioche e do café logo de manhã cedo não tem preço. Senti tanta saudade do abraço apertado e do toque caloroso brasileiro. Provei tantas comidas consideradas melhores no mundo: a mozzarella di bufala campana, a massa fresca em todos os modos, o tomate siciliano, o azeite de oliva mediterrâneo, o sorvete artesanal, só para começar. Encontrei na Itália a paixão pela bicicleta, modo de locomoção ecologicamente correto que me colocou em forma como nunca e me fez conhecer, através das minhas próprias pernas, grande parte do território italiano. Resgatei na medicina italiana a capacidade de usar a semiologia durante uma consulta médica, tive que reabrir os livros para relembrar acrônimos e síndromes, e me surpreendi com certas condutas conservadoras, como exemplo no tratamento da dor. Medicações que são facilmente acessíveis no Brasil, como opióides, na Itália são utilizadas raramente e o acesso muito mais restrito. Terapias aprovadas na América são consideradas nocivas na Europa e assim por diante. Tais diferenças explicam em parte a necessidade de um processo de reconhecimento do diploma médico. Considerei as diferenças na abordagem ao paciente e na gestão pública razões essenciais que justificassem o estudo de quase dois anos para então obter a habilitação ao exercício da profissão na Itália. Novamente, algo que enriqueceu o porta-malas da minha vida e que me fez entender e não julgar.
Em 2013, durante uma pausa no Kenya após três meses de missão no Sudão do Sul, em um campo de refugiados, me encontrei uma noite sentada à mesa com um grupo de ucranianos em safari. Mais jovens e cheios de energia queriam saber mais e mais sobre meu trabalho com os refugiados. Olhavam minhas fotos e me escutavam quase paralisados. Mais tarde, quando me deitei na cama na minha tenda, pensei na reação daqueles jovens. Era aquela curiosidade pelo desconhecido que os tinha provocado, e dessa vez eu era algo concreto no qual eles poderiam acreditar. Pensei então em quantas pessoas até hoje eu ouvi e ouço admirada porque fazem algo desconhecido ou inatingível. Tratar pacientes com malária cerebral, desnutrição grave, hepatite E, e cólera dentro de um container improvisado em meio a um campo de refugiados era algo que há 5 anos eu via em uma outra dimensão. Viver essa realidade em todos os sentidos me fez redimensionar, mudar preconceitos e de novo entender no lugar de julgar.
Quanto mais se conhece o mundo, mais minúsculos somos, ironia. No entanto, enquanto uns são maiúsculos vivendo a vida dos outros, outros são gigantes havendo um mundo minúsculo e original.

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